04 dezembro 2017

“As redes sociais mudaram de vez a cara da democracia”, mas terão impacto relativo em 2018


Estado

Faltam dez meses para a eleição de um novo presidente da República, mas o clima do debate político já permite prever um 2018 conturbado.

Para Fernando Schuler, cientista político e professor do Insper, as redes sociais tornam o sistema ‘instável’, mas seu peso no debate de 2018 será relativo, porque suas informações ‘não conseguem formar uma hegemonia’.

“As redes mudaram para sempre a cara da democracia” e a tornam “muito instável”, adverte Fernando Schuler .

Formado em Ciência Política no Rio Grande do Sul, com pós-doutorado na Columbia University, em Nova York, e criador do projeto Fronteiras do Pensamento, Schuler se diz otimista com avanços importantes obtidos pelo governo em 2017 – entre eles a PEC do Teto, a Taxa de Longo Prazo e a Lei de Governança das Estatais.

“Isso cria a expectativa positiva de que o País pode, sim, fazer mudanças estruturais”.

Opinião do blog – Muito interessante a entrevista de Schuler sobre as redes sociais e a campanha de 2018.


Seguem-se alguns trechos que sintetizam o pensamento do entrevistado e servem como pontos de reflexão.

Acha isso bom ou mau?

“Isso tudo torna a democracia muito mais instável.

As redes a tornam mais participativa, integram as pessoas de uma maneira nova – mas o problema é que geram essa enorme instabilidade.

Há 30 anos você tinha talvez 5 mil pessoas participando do debate público político. Hoje, devemos ter cerca de um milhão de pessoas.

Mas é um debate radicalizado, intolerante, com denúncias anônimas, que afetam sua seriedade e qualidade, não?
É evidente.

A qualidade não é a mesma.

As pessoas tendem a agir com irresponsabilidade na cena pública, porque o custo da intervenção é muito baixo.

Há quem veja um certo desequilíbrio na cena social: as instituições da representação democrática são formais, burocráticas – ou seja, lentas – e têm de conviver com uma sociedade digital ágil, imediatista, fragmentada. No que isso vai dar?

Acredito que as pessoas vão continuar participando diretamente, se organizando e pressionando.

No Brasil, estamos testemunhando o surgimento de “n” movimentos – como o Renova BR, o Agora e outros, que emergiram no processo de impeachment de Dilma Rousseff e o lideraram.

Esses grupos vieram para ficar e não há nada a fazer quanto a isso.

Eles criam o debate, politizam.

Que impacto e peso real as redes podem ter na opinião pública?

Minha impressão é que vai ser um impacto relativo.

As redes têm um limite sério: estão congestionadas.

O volume de informações é tão grande, tão anárquico, efêmero, sua circulação é tão rápida, que não se consegue criar nenhum tipo de hegemonia na opinião pública.

Por que os movimentos de rua de 2013 não evoluíram para partidos, como ocorreu na Espanha, na Itália e na França – onde um pequeno grupo em menos de dois anos chegou à presidência com Emmanuel Macron?

Nem todos os movimentos precisam virar partidos – e é bom que não o façam.

É importante na democracia contarmos com uma sociedade civil forte, com grupos independentes que defendam causas.

Mas, lógico, há outros fatores em cena.

Criar um partido ficou menos atrativo, com a aprovação da uma cláusula de barreira, que é muito suave, mas enfim existe.

Hoje está claro que Michel Temer fica até o fim, que a recessão acabou e a economia, lentamente, está se arrumando. Como organizar as prioridades para um bom debate eleitoral em 2018?
Resumindo, eu diria que o Brasil produziu, na sua história recente, dois consensos.

Um em torno da democracia, que se firmou ao longo dos anos 80.

E outro em torno do Estado de proteção social, que ainda é ineficiente mas, pelo menos, existe.

Temos o Bolsa Família, saúde universalizada – é de baixa qualidade, mas existe.

O que nos falta agora é um consenso em torno da responsabilidade fiscal.

É incrível que essa lei foi sancionada no ano 2000 e até hoje não entrou na cabeça dos nossos políticos.

Foi preciso aprovar uma PEC do Teto dos Gastos, que mais pareceu uma operação bariátrica, para obrigar o sistema político a fazer o óbvio, que é não gastar um dinheiro que não existe.

Resultado: temos um sistema tributário que, num levantamento do Banco Mundial, entre 190 países, nos colocou em 184.º lugar!

Só somos melhores do que seis países em todo o planeta!

É um atraso que se verifica também nos rankings de saúde, educação e de inovação tecnológica, entre outros.
Mas volto a lembrar: 2017 teve seus pontos positivos.

Em meio à crise, à incerteza, a agenda de reformas avançou.

Conseguimos aprovar o Teto de Gastos, uma reforma trabalhista mínima, a TLP – Taxa de Longo Prazo.

E também passou a Lei de Governança das Estatais.

É uma legislação que protege as estatais da captura de seus conselhos e topos executivos por parte dos políticos.

De alguma maneira você bloqueia o clientelismo. São méritos que temos de reconhecer no atual governo.

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